Quaresma - Tempo de Silenciar

Quaresma - Tempo de Silenciar

“O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz.” (Tg 3,18)

A Paz completa em Cristo Jesus

Jesus Cristo por diversas vezes ao se aproximar dos seus discípulos proclamava “A Paz esteja convosco”. Na verdade, os estudiosos da Sagrada Escritura afirmam e entendem que o próprio Jesus “se” anunciava e “se” apresentava como a verdadeira Paz quando estava com seus seguidores. Na presença dele, todos tinham seus corações acalmados e acalentados; os doentes eram curados, os condenados e pecadores eram libertos e perdoados. A paz completa imperava na presença do Filho de Deus.

Os judeus têm uma expressão para esta paz completa. Eles usam o termo Shalom (שלום). Este verbete não significa ausência de guerra ou de discórdia, mas algo maravilhoso que nasce dentro do nosso coração e invade todo o nosso ser, dando-nos tranquilidade, serenidade. É a ação do Espírito Santo em nós, que revela a presença de Deus conosco (“Eis que estarei convosco até o fim dos tempos”, Mt 28,20).

Esta paz se apresenta na ordem de Deus (em grego κόσμος, transl.: Kosmos) em oposição à desordem do mundo (em grego: Χάος, transl.: Cháos).

Cristo, portanto, sendo o Verbo Divino, comunica a Boa Nova através da sua presença, da sua personalidade, do seu modo de viver, sendo Ele a Paz que permanece conosco e nos encanta e nos alegra. Mais que falar de Deus, Jesus revela o próprio Deus sendo Ele mesmo. Deus que é Amor revela-se a si próprio amando-nos, e este amor se expressa em sua plenitude na sua Paixão e Morte.

Concluímos, então, que o Verbo Divino se comunica não apenas com palavras, mas, principalmente, com sua vida exemplar, a ponto do próprio Criador proclamar em alta voz “Eis meu Filho amado no qual coloco toda a minha complacência” (Mt 3,17).

A Paz expressa no silêncio

São Tiago, em sua epístola, no capítulo 3, reflete sobre os males causados pelo mau uso da língua. O que ele quer nos ensinar é que devemos vigiar atentamente nosso falar, que é a porta do nosso coração. “A boca fala do que está cheio o coração” (Mt 12,34).

São Bento dedica o sexto capítulo de sua regra para orientar seus filhos espirituais na prática do silêncio como exercício para evitar o pecado.

Façamos o que diz o profeta: "Eu disse, guardarei os meus caminhos para que não peque pela língua: pus uma guarda à minha boca: emudeci, humilhei-me e calei as coisas boas". Aqui mostra o Profeta que, se, às vezes, se devem calar mesmo as boas conversas, por causa do silêncio, quanto mais não deverão ser suprimidas as más palavras, por causa do castigo do pecado? Por isso, ainda que se trate de conversas boas, santas e próprias a edificar, raramente seja concedida aos discípulos perfeitos licença de falar, por causa da gravidade do silêncio, pois está escrito: "Falando muito não foges ao pecado", e em outro lugar: "a morte e a vida estão em poder da língua". Com efeito, falar e ensinar compete ao mestre; ao discípulo convém calar e ouvir.

Por isso, se é preciso pedir alguma coisa ao superior, que se peça com toda a humildade e submissão da reverência. Já quanto às brincadeiras, palavras ociosas e que provocam riso, condenamo-las em todos os lugares a uma eterna clausura, para tais palavras não permitimos ao discípulo abrir a boca.
Anselm Grün, monge beneditino administrador da Abadia de Münsterschwarzach, em seu livro As Exigências do Silêncio, escreve que o falar traz consigo quatro perigos. O primeiro é a curiosidade.

A curiosidade leva-nos a querer nos inteirar de assuntos que não nos dizem respeito, e assim nós nos perdemos em distrações e em faltas. Curiosos nos “metemos” nas conversas dos outros e corremos o risco de até “pegar o bonde andando” e cometer o segundo perigo: o julgamento.

É impressionante como nos surpreendemos julgando os outros, classificando-os ou então comparando-nos a eles. Os outros são sempre interessantes, não é mesmo?

Falar sobre os outros é falar sobre nós mesmos, sem que disso tomemos consciência. Falamos sobre as coisas que gostaríamos de ter, ou sobre coisas que nos incomodam, que nos causam insegurança, ou que nos provocam. Mas quando falamos sobre os outros, esquecemos que estamos falando sobre nós mesmos e sobre nossos problemas. E isso prejudica o nosso autoconhecimento, que é tão importante para que nos amemos mais e consequentemente amemos os nossos irmãos.

O terceiro perigo é a vaidade. Aquele que fala muito frequentemente coloca-se no centro. Quem fala quer ser levado em conta, espera ser ouvido, ser levado a sério. E com bastante frequência espera ser reconhecido, ou mesmo admirado. Sem perceber, nós torcemos as palavras de modo a provocar reconhecimento. Assim o falar serve com frequência para satisfazer a vaidade.

O quarto e último perigo do falar consiste em negligenciar a vigilância interior. A vaidade presente no terceiro perigo não acarreta a observação atenta de nós mesmos na busca do autoconhecimento, mas em querer apenas aparentarmo-nos especiais. Esta falta de reflexão interior provoca o quarto perigo.

Concluindo: silenciar é experimentar a Paz de Cristo, que revela não só o próprio Deus na plenitude do seu Amor como também revela-nos a nós mesmos em nossa essência. Silenciar o nosso coração é ver a nós mesmos com os olhos de Deus, ver-nos como Ele nos vê.

O silêncio é remédio para muitos males. Silenciar é ouvir a voz de Deus que soa baixinho em nossos corações. E Deus cura. Deus salva.

O silêncio como oração

Aproveitemos este Tempo de Quaresma para exercitarmo-nos no silêncio. Calemos nosso espírito para ouvir Deus e estarmos com Ele. Recolhamo-nos em oração. Deus fala.

Podemos controlar todo o nosso ser ao controlarmos nossa língua (cf. Tg 3,3). Este é um bom exercício quaresmal.


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