Quaresma - Tempo de Preparação

Quaresma - Tempo de Preparação

“Se não estivermos voltados continuamente para a Páscoa, para o horizonte da Ressurreição, é claro que acaba por se impor a lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais.” – Papa Francisco

Quaresma é o tempo que antecede a Páscoa do Nosso Senhor Jesus Cristo. E este tempo é propício “para não nos contentarmos com uma vida medíocre, mas para crescermos na amizade com Deus”. Assim nos ensina o Papa Francisco.

A exemplo de Cristo, que foi provado no deserto (cf. leitura bíblica sugerida acima), devemos aproveitar essa oportunidade para vivermos uma profunda busca e descoberta das graças de Deus, através do jejum, oração e caridade, que favorecem imensamente o nosso espírito para uma comunhão mais plena com aquele que veio ao mundo para nos salvar – Jesus.

Viver a Quaresma é mergulhar no mistério da nossa criação e no Amor de Deus por nós, uma vez que nesse tempo somos convidados a nos aproximar de modo mais profundo daquele que é todo bondade e misericórdia. A este gesto chamamos de conversão.

Conversão é voltarmo-nos a Deus, tendo nós nos afastado dele pelo pecado. É, assim, renunciar a tudo que nos distancia daquele que nos criou no amor. Todavia, este passo em direção a Deus, apesar de ser algo que exige de nós uma escolha e atitude, não é unicamente uma iniciativa nossa. Ao contrário, não é sozinhos que nos tornamos cristãos. Não podemos fazer-nos cristãos a nós mesmos. Não é tarefa e capacidade do homem elevar-se como que a homem superior e, finalmente, a cristão. Nossa conversão ocorre pela graça de Deus em nós, que se manifesta principalmente através dos sacramentos, e a Quaresma é momento adequado para irmos em direção aos sinais visíveis e sensíveis da presença de Deus.

TEMPO DE JEJUM

No prefácio da Quaresma, a Igreja usa a expressão: “Jejunio mentem elevas” – “pelo jejum elevais os vossos sentimentos”.

O homem inteiramente saciado, que não sente mais fome nenhuma se torna cego e surdo. Acaba só vendo a si mesmo. Se uma vez nos conscientizamos disso, talvez também comecemos a entender de modo novo as imagens da Sagrada Escritura que foram incluídas na liturgia do batismo: a imagem do homem que é cego perante Deus; do homem que é surdo-mudo, não podendo perceber nem a si nem o mundo. Verificamos que precisamos daquela realidade que está indicada pela palavra “jejuar”.

É verdade que hoje há jejum de muitas modalidades: por motivos de medicina, estética e outros. Isso é bom. Entretanto, tais jejuns não bastam para o homem, pois seus fins continuam sendo o próprio eu. Não libertam o homem de si próprio, mas novamente existem só para ele mesmo. Ora, precisamos de um jejum, uma renúncia que nos liberte de nós mesmos, nos liberte para Deus, tornando-nos livres para os outros.

O fato de que o jejum cristão tem de ser um sair libertador do próprio eu ocasiona a exigência de que o tempo do jejum também é de fecundidade em boas ações.

TEMPO DE CARIDADE

A vocação do Homem é o amor. Fomos feitos no amor, com amor, por amor e PARA O AMOR. Portanto, o exercício da caridade é a excelência da preparação para a comunhão com aquele que é puro Amor.

Ser caridoso não é meramente dar esmolas, mas tornar-se um com o outro; ver-se no outro. A esta qualidade chamamos de empatia.

TEMPO DE ABSTINÊNCIA

Diante de tudo que já foi dito, resta-nos perceber que não devemos nos prender no mundo, pois não somos desse mundo mas do vindouro. Assim, faz-se necessária a experiência da abstinência que é abrir mão do que temos – principalmente da nossa vontade – em prol do nosso crescimento espiritual.

Quando nos desapegamos do que nos cerca, deixamo-nos livres para alcançar o terreno que nos é preparado (Jo 14,2-3).

Jejum e abstinência podem ser confundidos como uma coisa só, mas não são. O jejum refere-se à supressão de uma refeição com um propósito de abstinência e esta é mais abrangente, refere-se ao sacrifício de diminuir o consumo de algo ou a prática de algo.

Resumindo:

Abstinência - o fiel católico a partir dos 14 anos de idade deve abster-se de comer carne (e seus derivados) na Quarta-feira de Cinzas, na Sexta-feira Santa (da Paixão) e em todas as sextas-feiras do ano (salvo se for dia de solenidade);

Jejum - o fiel católico a partir dos 18 anos até os 59 anos deve deixar de fazer uma refeição no dia - devendo ser o almoço ou o jantar (nunca o café da manhã), na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira da Paixão.

Assim, na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira da Paixão todo católico deve: abster-se de comer carne e seus derivados E fazer jejum.

TEMPO DE ORAÇÃO

Acredito que ficou óbvio que a Quaresma também é tempo ideal para a oração, pois ela é a nossa conversa com Deus. Orar é dialogar; falar o que passa em nosso coração, ouvir a mensagem de Deus.

Como seguidores de Cristo, somos convidados a uma vida de oração. Um cristão que não reza, não pode se dizer cristão.

A oração nos transforma, nos alinha com os pensamentos de Deus, nos faz conhecer a sua vontade. Oração é uma experiência, não simplesmente um mover os lábios liberando palavras decoradas.

KAIRÓS: TEMPO DA GRAÇA

O termo Kairós refere-se tanto a uma personagem da mitologia, quanto uma antiga noção grega para referir-se a um aspecto qualitativo do tempo. A palavra Kairós, em grego, significa o momento certo. Sua correspondente em latim, momentum, refere-se ao instante, ocasião ou movimento que deixa uma impressão forte e única para toda a vida (WEBSTER, 1993).

Na mitologia grega, Kairós é um atleta de características obscuras, que não se expressa por uma imagem uniforme, estática, mas por uma ideia de movimento. Metaforicamente, ele descreve uma noção peculiar de tempo, uma qualidade complementar em relação à noção de temporalidade representada por Cronos.
Em palavras simples, diríamos que Kairós revela o momento certo para a coisa certa. Kairós simboliza o instante singular que guarda a melhor oportunidade, ele é o momento crítico para agir, a ocasião certa, a estação apropriada.

Mas Kairós não reflete o passado, ou antecede o futuro. Kairós é o melhor instante no presente. Ele representa um tempo não absoluto, contínuo ou linear, ao contrário do que propõe a concepção newtoniana refletida no tempo cronológico, socialmente estabelecido (ZERUBAVEL,1982). A dimensão de experiência temporal representada por Kairós instala-se em consonância à totalidade dos elementos individuais envolvidos e à dinâmica de suas relações (AQUINO, 2016).

Optei por trazer ao conhecimento de vocês este termo grego para que vocês possam entender perfeitamente o que significa o Tempo Quaresmal. É, pois, exatamente o Kairós de Deus, o tempo da graça em que Deus se manifesta em nós, preparando-nos, com a nossa abertura através do jejum, oração, abstinência e caridade, para o ápice da nossa caminhada de fé, que é a Paixão e Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Neste momento, revela-se e se vivencia a nossa salvação.

Que o nosso Kairós seja uma perfeita oportunidade para nos reaproximarmos de Deus e vivermos em intimidade com Ele. Aproveite esta oportunidade. Tenha acesso aos ventos favoráveis.

Oportunidade: Os romanos costumavam dar nomes aos ventos. Aquele que favorecia as navegações retornarem aos portos era chamado de "Ob Portus", daí vem os termos "oportuno" e "oportunidade". Oportunidade, portanto, é ter acesso a um vento favorável que permite a uma pessoa chegar onde se quer ou fazer o que se deseja.

“Não deixemos que passe em vão este tempo favorável!”, é o apelo final do Papa.

Clique aqui: Papa Francisco é entrevistado pelo Vatican News sobre a Quaresma de 2019


Imprimir   Email

Artigos relacionados

Perdoar sempre ou sofrer eternamente

Perdoar sempre ou sofrer eternamente

Três formas de enxergar o mundo

Três formas de enxergar o mundo