150 anos da Igreja Matriz de Nova Friburgo

Histórico da Catedral de São João Batista

Celebrar os 150 anos da Igreja Matriz de Nova Friburgo, hoje, Catedral de São João Batista, pode resultar num momento de caráter histórico, isto é, fazer memória de uma trajetória de fé daquela que é a mãe das igrejas de nossa Diocese. Ela que abriga em seus átrios a Cátedra de onde o Bispo Diocesano apascenta a grei que lhe foi confiada por mercê de Deus e da Sé Apostólica.

Além da recordação de fatos, momentos e pessoas, deve ecoar em nosso coração a seguinte indagação: por que após tantos anos nossa paróquia continua com o viço daquele dia 8 de dezembro de 1869, quando abriu suas portas pela primeira vez?

Encontramos uma única resposta: em todos estes anos as portas abertas dessa igreja de estilo neoclássico anunciaram somente uma "boa notícia": Jesus Cristo. O Senhor é a boa-nova para o homem de todos os tempos, pois Ele é o grande "Sim" de Deus à humanidade e foi esta comunicação através dos Bispos, sacerdotes e leigos que fizeram da Catedral não somente um templo de pedra, porém uma mensagem que traz a verdadeira felicidade.

Como tudo começou

No acordo firmado entre o Governo Brasileiro (Reinado de Dom João VI) e o Governo Suíço, foi determinado que os imigrantes suíços deveriam ser Católicos Apostólicos Romanos, por isso trouxeram os abades Joye e Aeby para servirem aos fiéis. 

Na História das migrações dos povos, são poucos os acontecidos semelhantes à da colonização suíça que redundou na fundação de Nova Friburgo. Constituiu-se ela na primeira colonização não portuguesa havida no Brasil, em caráter permanente. A incrível viagem iniciada ao longo do Rio Reno em 4 de julho de 1819 com colonos de Fribourg, Vallet e de Vaud, formando o primeiro comboio da colônia, partiu do porto de Estavayer le lac, por volta do meio dia, sob o ruído dos canhões, após terem recebido a benção de Sua Grandeza Monsenhor Bispo de Lausanne, que foi às margens do lago, acompanhado de parte do seu clero.

Em 11 de setembro de 1819, os colonos começaram a lançar-se ao Atlântico no navio Daphné. No dia seguinte os demais colonos os seguiram em outras seis embarcações, totalizando 2006 pessoas embarcadas, homens e mulheres, de todas as idades. Durante seu decurso nasceram 14 pessoas e 289 encontraram a morte. Num dos veleiros, o Urânia, que transportou 437 colonos, todos do cantão de Fribourg, 109 tiveram o Atlântico por túmulo. Num só dia, sete corpos foram lançados ao mar.

Embarcaram, na Europa, dois padres, Jacob Joye e Joseph Aeby, o segundo morreu em Santo Antonio de Sá, quando se banhava no Rio Macacu, às vésperas de chegar ao destino.

Os colonos embarcados no navio Daphné, em Rotterdam, em 11 de setembro de 1819, em número de 192, chegaram ao Rio de Janeiro em 4 de novembro e ao Morro Queimado, em 15, tendo perdido 31 pessoas durante a travessia.

Os colonos embarcados em Rotterdam no navio Debby Elisa, capitão Spranel, em 12 de setembro, em número de 233, chegaram ao Rio de Janeiro em 26 de outubro de 1819 e ao Morro Queimado em 6 de dezembro, tendo perdido 26 pessoas na travessia.

Os colonos embarcados em Rotterdam no navio Urânia, Capitão Bochs, em 12 de setembro, em número de 437, chegaram ao Rio de Janeiro em 30 de novembro de 1819 e ao Morro Queimado em 11 de dezembro, tendo perdido 109 pessoas na travessia.

Os colonos embarcados em Amsterdam, no navio Elisabeth Marie, capitão Struyk, em 10 de outubro, em número de 228, chegaram ao Rio de Janeiro em 7 de dezembro de 1819 e ao Morro Queimado em 18, tendo perdido 19 pessoas na travessia.

Os colonos embarcados em Amsterdam, no navio Heureux Voyage, capitão Van der Cerar, em 10 de outubro, em número de 437, chegaram em 17 de dezembro ao Rio de Janeiro e ao Morro Queimado em 27, tendo perdido 40 pessoas na travessia.

Os colonos embarcados em Gravendel, perto de Rotterdam, em 12 de setembro de 1819, no navio Deux Catherine, capitão Bot, em número de 357, chegaram ao Rio de Janeiro em 4 de fevereiro de 1820, tendo perdido 77 pessoas na travessia.

Os colonos embarcados no navio Camillus, em Den Helder, perto de Amsterdam, capitão Grippensee, em 10 de outubro de 1819, chegaram ao Rio de Janeiro em 8 de fevereiro de 1820, tendo perdido 11 pessoas na travessia. Este navio encalhou na areia e foi obrigado a aportar em Ramsgate, porto da Inglaterra.

Todos os colonos chegaram ao seu destino, Morro Queimado, dez dias após a sua chegada ao porto do Rio de Janeiro

Monsenhor Miranda, Grande chanceler do Rei e Inspetor da Colônia, chegou a Nova Friburgo em 4 de março de 1820. Ele se ocupou da organização das famílias que foram compostas voluntariamente por 16, 17 ou 18 pessoas. Feita essa operação passou-se à preparação dos terrenos para hortas e obras públicas, como abertura de canais, vias públicas etc.

A pedido de Dom João VI, a paróquia da Vila de Nova Friburgo deveria ser dedicada a São João Batista, porque o Rei e sua família eram seus devotos - daí o seu nome de batismo.

Igreja Matriz de Nova Friburgo
Igreja Matriz de Nova Friburgo - Fundação Dom João VI Pró-Memória Nova Friburgo

 

O primeiro vigário da Matriz foi o Padre Jacob Joye e a pequena Capela estava situada numa subida chamada "Chatô" (hoje Colégio Anchieta). Distando 50 léguas do centro da Vila era um lugar de difícil acesso e, ao chover, era impossível lá subir (isto em 1820). Esta circunstância dificultava as celebrações religiosas o que desagradava ao Padre Joye e aos fieis. No seu enérgico documento dirigido a Câmara em 17 de maio de 1830 escreveu ele: "As leis da Igreja Católica prescrevem a assistência ao Culto Divino, e para facilitar aos fieis o exercício religioso os Templos são edificados no centro das povoações, porém, o contrário se pratica nesta Freguesia donde tenho a honra de ser Vigário. O Culto Divino celebra-se não somente em uma varanda aberta, mais ainda retirada da Vila perto de um quarto de légua, e na ocasião das chuvas o caminho é intransitável para o povo de pé, de forma que os Ofícios Divinos são desertos; segue-se daqui, que nem o pároco, nem os fieis podem cumprir com suas obrigações sagradas; assim as ovelhas vivem dispersas sem poder ouvir a voz do pastor".

Não tendo resposta oficial, ele, ousadamente tomou posse de uma das salas da Câmara e para ali transferiu a Matriz (1834). Não foi muito feliz a escolha do lugar, pois ali funcionava a Câmara com todo o seu processo da administração e resoluções de fatos jurídicos, acontecendo disputas e condenações diversas. Enfim, barulho, brigas, inconveniências! Clima nada adequado ao Culto Divino.

A Câmara criou uma Comissão para julgar a legalidade dessa posse e, em 17 de fevereiro de 1837 ela elaborou um Documento negando a permanência da Matriz naquela sala. No relatório final, foi dado ao Padre Joye apenas 30 dias para retirar a Matriz ali instalada. Sem sugestões de soluções para o problema.

Tomando conhecimento desse documento, o Presidente da Província, em 2 de março de 1837, oficiou a Câmara um documento. Embora concordando com a inadequação do local para o Culto condenava o prazo pequeno demais para a mudança e a falta de perspectivas financeiras para a mesma.

Enfim estabelece-se a Igreja Matriz

"Comendador Antônio Clemente Pinto, Barão de Nova Friburgo, comprou por Um Conto de Réis, de Guilherme Mário Salusse e sua mulher Mariana Salusse um terreno situado na praça principal da Vila para nele ser edificada a Igreja Matriz". A sua construção durou oito anos, subsidiada pela Província Fluminense.

Aos 8 de dezembro de 1869, na Solene Festa da Imaculada Conceição, foi inaugurada esta nossa Igreja Matriz (hoje Catedral da Diocese de Nova Friburgo) da Paróquia de São João Batista.

O Padre Jacob Joye foi vigário nesta freguesia de 1820 a 1863. Seu nome está intimamente ligado a história desta nossa querida Catedral. 

Sobre o Padre Jacob Joye

Padre Jacob JoyeAo embarcar no porto de Estavayer-le-Lac, no Lago de Neuchâtel, no cantão de Fribourg, Padre Joye contava com 29 anos de idade. No Brasil teve uma vida de muitas e seguidas lutas, mas não conseguiu sequer, construir sua igreja paroquial. Teve de se haver com vultosos problemas religiosos, surgidos com a inopinada chegada a Nova Friburgo, em 3 de maio de 1824, de 342 alemães chefiados por um pastor luterano, que veio como condutor da primeira leva de protestantes a se instalar na América Latina. Oswald Friedrich Sauerbronn, líder dos alemães, conseguiu erguer seu templo, na vila, antes de Joye, representante da religião oficial do então Reino do Brasil, o Catolicismo, apesar de suas intensas e inglórias lutas a respeito, quando chegou, inclusive, a iniciar, com a devida licença da Câmara Municipal, a construção da sua Igreja Matriz, mas que teve o desencanto de ver suas obras paralisadas por determinação da própria Câmara.

Padre Jacob Joye não resistiu à humilhação. Abandonou a vila e refugiou-se em São José do Ribeirão, onde veio a falecer em 8 de julho de 1866 contando, portanto, com a idade de 75 anos.

Fonte de pesquisa: "A Gênese de Nova Friburgo" - Martin Nicoulin
- extraído do Centro de Documentação Dom João VI - Pró-Memória de Nova Friburgo.
Este documento está disponível para download.

 


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